Sister Rosetta Tharpe: A Madrinha do Rock and Roll
A história da música popular do século XX é frequentemente contada através de figuras masculinas que se tornaram ícones globais. Nomes como Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard e Johnny Cash são universalmente reconhecidos como os pioneiros do rock and roll. No entanto, antes que qualquer um desses artistas dedilhasse seus primeiros acordes ou gravasse seus primeiros sucessos, havia uma mulher negra, armada com uma guitarra elétrica e uma voz poderosa, que já estava pavimentando o caminho. Seu nome era Sister Rosetta Tharpe, e ela é, sem sombra de dúvida, a verdadeira Madrinha do Rock and Roll.
A trajetória de Rosetta Tharpe é uma fascinante jornada de quebra de barreiras. Ela uniu o fervor espiritual da música gospel com a energia pulsante do rhythm and blues, criando uma sonoridade que mudaria o mundo para sempre. Desde suas raízes humildes no sul dos Estados Unidos até os palcos da Europa, sua vida foi marcada por inovações musicais, controvérsias e um talento inigualável.
A Infância no Sul e as Raízes no Gospel
Nascida como Rosetta Nubin em 20 de março de 1915, na pequena cidade de Cotton Plant, no estado do Arkansas, ela cresceu imersa em um ambiente onde a música e a religião eram inseparáveis. Seus pais eram apanhadores de algodão, mas sua mãe, Katie Bell Nubin, era também uma fervorosa evangelista, cantora e tocadora de bandolim ligada à Igreja de Deus em Cristo (Church of God in Christ – COGIC).
A COGIC era uma denominação pentecostal predominantemente negra que encorajava a expressão musical rítmica e extasiante durante os cultos, permitindo inclusive que mulheres pregassem e liderassem congregações. Foi nesse ambiente de liberdade expressiva que a jovem Rosetta começou a desenvolver seu talento. Aos quatro anos de idade, ela já cantava e tocava violão ao lado da mãe, sendo anunciada como um prodígio musical.
Na década de 1920, buscando melhores oportunidades e fugindo da segregação brutal do Sul, Rosetta e sua mãe se juntaram à Grande Migração e mudaram-se para Chicago. Lá, a jovem foi exposta ao blues e ao jazz que fervilhavam na cidade, elementos que ela inevitavelmente absorveria e incorporaria ao seu estilo de tocar. Ela e a mãe viajavam constantemente, apresentando-se em igrejas e tendas de avivamento por todo o país, construindo a reputação de Rosetta como uma das artistas gospel mais impressionantes de sua geração.
A Ascensão: Do Púlpito para os Clubes Noturnos
Em 1934, Rosetta casou-se com Thomas Thorpe, um pastor de quem ela adotaria o sobrenome (alterando a grafia para “Tharpe” como nome artístico). O casamento foi curto e infeliz, mas o nome permaneceu. Em 1938, ela tomou uma decisão que mudaria sua vida e a história da música: mudou-se para Nova York e assinou um contrato com a Decca Records.
Naquele mesmo ano, ela gravou faixas que se tornariam sucessos estrondosos, como “Rock Me” e “That’s All”. O que tornava essas gravações revolucionárias era a forma como Tharpe tocava. Ela não apenas dedilhava o violão; ela o atacava com uma técnica de palhetada vigorosa, usando distorção e um senso de ritmo que antecipava o rock and roll em mais de uma década.
A grande controvérsia de sua carreira inicial surgiu quando ela começou a se apresentar em locais seculares, como o famoso Cotton Club no Harlem, ao lado de lendas do jazz como Cab Calloway e Duke Ellington. Para a comunidade religiosa mais conservadora, ver uma cantora gospel se apresentando em clubes noturnos para públicos que bebiam e dançavam era um escândalo. No entanto, para o público secular, a energia espiritual e a habilidade técnica de Tharpe eram hipnotizantes. Ela foi uma das primeiras artistas a cruzar a linha entre a música sacra e a profana com tanto sucesso comercial.
A Invenção de um Novo Som
Durante a década de 1940, Sister Rosetta Tharpe atingiu o auge de sua popularidade. Ela foi uma das poucas artistas negras a gravar “V-Discs” (discos produzidos especificamente para as tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial), o que ajudou a espalhar sua música internacionalmente.
Em 1944, ela gravou “Strange Things Happening Every Day”, acompanhada pelo pianista de boogie-woogie Sammy Price. A música foi um sucesso massivo e fez história ao se tornar a primeira gravação gospel a entrar no Top 10 da parada “Race Records” da Billboard (que mais tarde se tornaria a parada de R&B). Com seu ritmo acelerado, vocais dinâmicos e um solo de guitarra elétrico brilhante, muitos historiadores da música consideram esta faixa como a primeira gravação real de rock and roll.
Tharpe trocou os violões acústicos pelas guitarras elétricas, tornando-se famosa por empunhar uma Gibson SG branca. Sua presença de palco era magnética. Ela sorria, flertava com o público, balançava o corpo e tocava solos de guitarra que deixavam os músicos homens da época boquiabertos. Chuck Berry admitiu ter modelado grande parte de seu estilo de guitarra a partir do que ouviu de Rosetta. Little Richard a citou como sua cantora favorita e a pessoa que o convidou para subir ao palco pela primeira vez quando ele era apenas um adolescente. Elvis Presley, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis cresceram ouvindo seus discos e absorvendo sua fusão de gospel e ritmo.
O Casamento em Estádio e a Parceria com Marie Knight
Em 1946, Tharpe viu uma jovem cantora chamada Marie Knight se apresentar e imediatamente a convidou para sair em turnê. A dupla formou uma parceria musical incrivelmente bem-sucedida, gravando sucessos como “Up Above My Head”. A química entre as duas era inegável, e elas excursionaram juntas por anos, atraindo multidões imensas.
O poder de atração de Rosetta era tão grande que, em 1951, quando ela se casou com seu terceiro marido, Russell Morrison (que também se tornou seu empresário), a cerimônia foi realizada no Griffith Stadium, em Washington, D.C. O evento atraiu cerca de 20.000 a 25.000 fãs pagantes, que compraram ingressos para assistir ao casamento seguido de um concerto completo. Foi um espetáculo de proporções épicas, demonstrando o status de superestrela que ela havia alcançado.
A Turnê Europeia e a Influência no Rock Britânico
Com o advento do rock and roll na década de 1950 — um gênero que ela ajudou a criar —, o mercado musical começou a mudar. Os holofotes se voltaram para artistas mais jovens e, frequentemente, brancos. A popularidade de Tharpe nos Estados Unidos começou a declinar, mas a Europa estava prestes a redescobri-la.
Em 1964, Sister Rosetta Tharpe foi convidada para participar da “American Folk Blues Festival”, uma turnê pela Europa que incluía lendas como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Sonny Boy Williamson. Um dos momentos mais icônicos dessa turnê ocorreu em Manchester, na Inglaterra. O show foi filmado em uma estação de trem abandonada (Chorltonville) em um dia chuvoso.
Tharpe chegou em uma carruagem puxada por cavalos, desceu, pegou sua guitarra elétrica e, debaixo de chuva, tocou “Didn’t It Rain” com uma ferocidade e alegria que eletrizaram a plateia. Naquele público, assistindo pela televisão ou ao vivo, estavam jovens músicos britânicos que formariam bandas como The Rolling Stones, The Yardbirds e Cream. Eric Clapton, Keith Richards e Jeff Beck foram profundamente influenciados por essa turnê, garantindo que o DNA musical de Rosetta fosse injetado na Invasão Britânica.
Declínio, Morte e o Esquecimento Injusto
Apesar de seu sucesso na Europa, os anos finais de Rosetta Tharpe foram marcados por dificuldades de saúde e pelo esquecimento em seu próprio país. Em 1970, ela sofreu um derrame durante uma turnê com Muddy Waters, o que a forçou a reduzir drasticamente suas apresentações. Complicações decorrentes do diabetes levaram à amputação de uma de suas pernas.
Em 9 de outubro de 1973, Sister Rosetta Tharpe sofreu outro derrame fatal na Filadélfia, Pensilvânia, falecendo aos 58 anos. Tragicamente, a mulher que ensinou o mundo a fazer rock and roll foi enterrada em um túmulo sem lápide no cemitério de Northwood, na Filadélfia. Por décadas, seu nome foi amplamente omitido dos livros de história da música mainstream, ofuscado pelos homens que seguiram seus passos e colheram os frutos comerciais do gênero que ela ajudou a semear.
O Resgate de um Legado Monumental
Foi apenas no século XXI que o mundo começou a corrigir essa injustiça histórica. Biografias, documentários e o esforço de fãs dedicados começaram a trazer a história de Rosetta Tharpe de volta à luz.
Em 2008, um show beneficente foi organizado para arrecadar fundos e, finalmente, colocar uma lápide em seu túmulo. O epitáfio escolhido reflete perfeitamente sua importância: “Ela cantava até você chorar e depois cantava até você dançar de alegria. Ela ajudou a manter a igreja viva e os santos regozijando.”
O reconhecimento institucional máximo veio em 2018, quando Sister Rosetta Tharpe foi postumamente introduzida no Rock and Roll Hall of Fame na categoria de “Influência Inicial”.
Hoje, o legado de Rosetta Tharpe está mais vivo do que nunca. Ela é celebrada não apenas como uma pioneira musical, mas como um símbolo de resiliência. Uma mulher negra que, em uma época de profunda segregação racial e machismo, pegou uma guitarra elétrica e forjou um som que ecoaria pela eternidade. A história do rock and roll não começa com Elvis ou Chuck Berry; ela começa em uma igreja pentecostal, com os acordes distorcidos e a voz celestial de Sister Rosetta Tharpe.